Originalmente escrito por Rogério Muller
Adaptado por Paulo Octávio Tassinari Caixeta
A questão da força muscular no ciclismo de estrada, não me
chamava muito a atenção, como, aliás até
hoje não é muito levada a sério pela maioria dos treinadores e atletas desta
modalidade. O ciclismo, como todos sabem, é uma modalidade considerada aeróbia, devido aos longos percursos em
que são disputadas as provas. Desta forma, eu, como a maioria dos treinadores
da época, imaginávamos os treinamentos
de nossos atletas com base quase que puramente em treinos de longa distância,
rodando horas e horas em cima de uma bike.
Porém, durante o curso de pós-graduação em ciência do
condicionamento físico individualizado, o professor Antonio Carlos Gomes, Phd
em treinamento desportivo, durante uma das aulas fez a seguinte pergunta: “O
que decide uma prova de ciclismo de 150 km?” Respondi que era a capacidade de
resistência, no que ele discordou prontamente, dizendo que na verdade era a
força que decidia o resultado da prova. Tentei argumentar com ele, referindo-me
ao fato de uma prova de 150 km demorar em torno de 4 horas e por isso ser a
resistência o fator decisivo. Ele retornou com outra pergunta: “Em uma prova
desta distância, você sobra do pelotão pelo fato de não conseguir pedalar por 4
horas ou você sobra por que não consegue pedalar por algum tempo a 50 km/h?”.
“E se a prova vier para o sprint? O que vale no final?”. Pronto, meus
argumentos estavam desmontados, realmente, sempre que me tive dificuldades em
uma prova, o que faltou foi força.
Pensando nisso,
podemos dizer que a musculação e também o trabalho de força executado de forma
correta com a própria bicicleta, devem ter um tratamento especial no
planejamento dos treinamentos para uma temporada, devendo estar de acordo com
os objetivos de cada fase de treinamento.
Em se tratando especificamente da musculação, podemos
dividir os trabalhos basicamente em duas partes: uma para alguns segmentos do corpo que terão a função de dar
sustentação e apoio ao ciclista no ato de pedalar, como braços, costas,
abdômen e peitoral, com 3 a 4 séries de 12 a 15 repetições, com a finalidade de
desenvolver a resistência, cuidando-se para não sobrecarregar demais nos pesos,
evitando-se desta forma um aumento exagerado de massa muscular que geraria
aumento de peso;
Alguns exercícios para esta finalidade poderiam ser:
- Supino com barras ou halteres
- Remada baixa ou remada curvada
- Tríceps na polia alta ou tríceps testa com barra
- Desenvolvimento para ombros com barra ou halteres
- Rosca bíceps, sendo que a pegada de martelo se parece mais com o movimento utilizado na bike.
- Abdominais
- Levantamento terra
- Remada baixa ou remada curvada
- Tríceps na polia alta ou tríceps testa com barra
- Desenvolvimento para ombros com barra ou halteres
- Rosca bíceps, sendo que a pegada de martelo se parece mais com o movimento utilizado na bike.
- Abdominais
- Levantamento terra
A outra parte do
trabalho de musculação é a das pernas, que tem a função principal no
movimento dos pedais, a questão é muito mais complexa e requer avaliação de
cada caso, levando-se em consideração vários fatores, como idade, tipo de prova
que o atleta vai competir, biótipo do atleta, etc.
É importante lembrar
que em musculação, com a simples mudança na quantidade de repetições, nos
intervalos entre as séries, ou mesmo nas cargas de trabalho, podemos atingir
diferentes objetivos, desde o aumento da força máxima, potência ou da
resistência.
Alguns exercícios facilmente executáveis em qualquer
academia seriam:
- Leg press;
- Extensão de pernas;
- Flexão de pernas;
- Abdução e adução de pernas;
- Agachamento;
- Extensão de pernas;
- Flexão de pernas;
- Abdução e adução de pernas;
- Agachamento;
Pensando em adequar a musculação aos objetivos propostos em
cada fase de treinamento, poderíamos em linhas gerais definir os seguintes
critérios:
Na fase de trabalho de base, onde buscamos maior volume de treinamento
com a bike através de treinos mais longos, devemos trabalhar a musculação
também com este objetivo, utilizando de 3 a 4 séries de 15 a 20 repetições.
Já na fase de treinamento em que estivermos trabalhando mais
para o aumento da força, utilizaremos 3 a 4 séries de 4 a 8 repetições, com
grandes cargas. Ou ainda, podemos utilizar um trabalho específico para
desenvolver a massa muscular com 3 a 4 séries de 8 a 12 repetições, o que
também vai gerar aumento de força. Porém o aumento da massa muscular deve ser
feito com cuidado, pois em provas de estrada, não é muito interessante o atleta
estar muito pesado, principalmente em montanhas.
Na fase mais próxima das competições, quando buscamos um
aumento de potência e velocidade do atleta, temos de ter o cuidado de acertar
as cargas e a velocidade do movimento para que não seja perdida a qualidade do
movimento. Aqui podemos utilizar de trabalhos de repetições por tempo, com
intervalos bem regulados, principalmente no leg press, como por exemplo 45
segundos de exercício no leg press com 45 segundos de intervalo para descanso,
com 5 a 10 séries, tentando-se manter uma velocidade de cerca de 50 a 60
repetições em 45 segundos.
Em todos os casos, porém, como estamos falando em
treinamento de atletas, devemos atentar para dois fatores importantes: a
velocidade de movimento e a execução do movimento devem ser o mais idêntico
possível do que se executa na modalidade esportiva.
Os pesos utilizados variam de acordo com o objetivo a ser
alcançado.
Você poderá ainda
trabalhar com a intenção de melhorar a força das pernas utilizando-se para isso
da própria bike, seja em treinos de montanha ou mesmo em treinos com
velocidades mais altas como em contra relógio. O que deverá ser observado
sempre é para que a RPM (rotação por minuto) esteja dentro do ideal. Portanto,
se você não consegue fazer um treino de contra relógio de 5 km rodando entre 90
a 100 rpm em 53 x 15, é melhor que faça em 53 x 16, até que sua força seja
suficiente para manter a mesma RPM em uma relação mais elevada.
O mesmo serve para treinamentos de velocidade, onde é comum
vermos ciclistas querendo treinar sprint em relações como 53 x 12 sem ter para
isso força suficiente. O ideal seria um treinamento com incremento da carga ao
longo do tempo somente após a carga atual estar devidamente vencida, sem perda
da eficiência da velocidade de movimento. Desta forma o ciclista atingirá
sempre velocidades mais altas, com o passar do tempo.
Tal princípio serve também para o treinamento de montanha,
onde o ideal é que seja mantida uma boa RPM. Com o tempo o atleta será capaz de
subir com a mesma RPM em relações mais pesadas, gerando aumento da velocidade
média de subida.
Lembre-se, aqui apenas damos uma idéia de como é importante
a força no trabalho de treinamento de um ciclista, mas vale lembrar que você
certamente irá necessitar de um acompanhamento de um profissional da área de
educação física, de preferência com experiência em treinamento desportivo, para
adequar estes exercícios ao seu planejamento afim de que realmente seja
possível alcançar um nível ótimo de performance, pois a força mal trabalhada
pode inclusive prejudicar o rendimento do atleta. Não adianta nada chegar na
academia e ir levantando peso sem um cronograma bem elaborado.
E quando for treinar, lembre-se, não dê importância somente
à resistência, pois sem força você certamente não será um vencedor. Abraços e
bons treinos, sempre mais fortes.
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